092314 0048 1 O abandono da criança não abandonadapor: Ricardo Lopes*

em Tempo Presente

Resumo
Este artigo analisa a vulnerabilidade da criança no âmbito da família. Constrói o conceito de vulnerabilidade intrínseca, relacionado às características físicas e psicossociais dos diferentes sujeitos. Realiza uma crítica à educação e ao cuidado com a criança que se dá por meio de uma “violência de baixo teor”, em função de poder acarretar problemas psicológicos tornando-a mais vulnerável. Conclui que a educação da criança impõe um dever ético que se constitui num acolhimento e na consideração das razões da criança, mesmo para o caso de se negá-las.


Palavras-chave: vulnerabilidade, criança, cuidado.

Abstract
This article analyzes the vulnerability of the child in the family environment. It constructs the concept of intrinsic vulnerability, related to the physical and psychosocial characteristics of the different subjects. It criticizes education and child care using “low-level violence”, which may entail psychological problems for the child and future adult, making it more vulnerable. It concludes that the child’s condition and education impose an ethical duty to protect the child and consider his or her reasons, even if they are rejected.
Key-words: vulnerability, child, care.

Homenagem às crianças

Como é bom brincar!
Ou não fazer nada.
Assim como as crianças
que possuem todo o tempo do mundo.
Por isso, pra elas, o tempo é nada.
Assim como nada é tudo o que não lhes dá prazer.

Como é bom viver
tendo as crianças como mestras.
Ó Deus, livrai-me da doença de ser grande!
E de tudo querer saber e não saber de nada.

Da seriedade de uma brincadeira de criança
e da brincadeira de toda a minha seriedade.

De não saber sentir.
E, de ao sentir, querer saber o que sinto.
O quê e o quanto enquanto sinto,
de modo a não sentir
e nem saber.

Ó Deus, livrai-me da doença de saber!
Melhor a ignorância sábia da criança.

O presente trabalho pretende realizar uma análise do conceito de vulnerabilidade, aplicando-o a uma investigação da criança no âmbito familiar. Mais particularmente da criança pequena, de 0 a 6 ou 8 anos, período de formação de suas principais características psicológicas 1.
Pensamos, nesse caso, na vulnerabilidade intrínseca da criança, e não de uma criança que, em função de uma determinada situação ou circunstância de sua família, estaria vulnerável (vulnerabilidade extrínseca). Isso porque, independente da situação social em que uma criança se encontra, esta possui uma vulnerabilidade intrínseca derivada da condição mesma do ser da criança, dado sua fragilidade física, psicológica, bem como sua total dependência de um adulto que cuida dela (geralmente os pais).

1. Conceito de vulnerabilidade
Utilizando-se do conceito de vulnerabilidade, Robert Castel analisou o aspecto dinâmico dos processos de exclusão e inclusão, por meio de movimentos de vinculação e desvinculação, e não apenas de uma forma estática, o que muito contribui para a realização de uma análise da exclusão social, particularmente considerada num sentido amplo e não apenas estritamente econômica 2.
Analisando o processo de exclusão que se dá por meio de uma “metamorfose da questão social”, particularmente, a forma como esta é vista pela sociedade e pelo Estado, com vistas a intervir e, desse modo, dirimir problemas econômicos e políticos advindos da mesma, tendo como foco a França, Robert Castel desenvolveu o conceito de vulnerabilidade. O autor teve em vista uma identificação da forma como os trabalhadores estariam incluídos ou excluídos, em função de uma vinculação ou desvinculação aos mundos do trabalho e sócio-familiar.
Para Castel, a inserção que se dá no âmbito da esfera sócio-familiar “corresponde a vínculos familiares sólidos e estáveis, relações de amizade, coleguismo, companheirismo, vizinhança, que se deixam perceber na família, no time de futebol, no grupo religioso, nas festas da comunidade, no lazer” 3.
Já no âmbito do mundo do trabalho,

“(…) o processo de desenvolve entre uma inserção estável e regular que conjuga o binômio assalariamento (rendimentos) e proteção social, típica das sociedades de trabalho dos países centrais e uma condição de ruptura dos vínculos (desemprego crônico ou jovens que nunca conseguiram estabelecer sequer um vínculo precário). Exclusão neste âmbito é mais do que ocupar uma posição marginalizada no processo de produção e acumulação capitalista – e é a condição contemporânea de ser supérfluo e desnecessário. Entre uma situação e outra há inúmeras possibilidades de vulnerabilidade, precarização, instabilidade, irregularidade, desemprego recorrente, ocasional, cíclico, rendimentos decrescentes e informalidade” 4 (ibid).


Partindo de uma análise realizada por Robert Castel da exclusão social como um processo dinâmico que se realiza por meio de uma condição de vulnerabilidade propiciadora de um movimento de desvinculação de uma “zona de inserção” para uma “zona de exclusão”, tendo como “lócus” os mundos do trabalho e do ambiente sócio-familiar, Sarah Escorel realizou uma análise dos moradores de rua na cidade do Rio de Janeiro. No entanto, em sua análise, Escorel acrescentou a estes mundos do trabalho e da família analisados por Castel os mundos da política (cidadania), cultural (valores simbólicos) e o âmbito da vida 5.
Sobre o aspecto da cidadania, Escorel considera que existe um “território de infra-cidadania” ocupado por certos grupos que se encontram numa condição de “impossibilidade de instituir uma regra de reciprocidade” 6. Esses grupos, observou esta autora, “são excluídos da atividade política (ou nela têm apenas um papel figurativo) porque estão privados de recursos de poder e pelo desencanto (senão aversão) que sentem em relação à política e aos políticos” 7.
Já em relação ao eixo cultural (simbólico), Sarah Escorel observa que uma trajetória de desvinculação pode

“(…) conduzir à experiência de não encontrar nenhum estatuto e nenhum reconhecimento nas representações sociais, ou só encontrá-las em negativo. São caminhos que podem envolver discriminação, estigmatização, criminalização, não-reconhecimento, indiferença, negação da identidade ou identidade negativa, conformismo, naturalização e banalização” 8.

1.1. Vulnerabilidade intrínseca (constitutiva) e vulnerabilidade circunstancial (social)
Para o caso de uma análise do ser humano em sua infância, na sua mais tenra idade, e para a análise das diferentes situações de vulnerabilidade em que este possa se encontrar, consideramos relevante a realização de uma discriminação entre uma vulnerabilidade intrínseca ou constitutiva, caracterizada por determinadas aspectos da condição humana que não podem ser mudados, ou cuja mudança somente pode se dar numa média ou longa duração; e uma vulnerabilidade situacional, derivada das circunstâncias ou da experiência histórica (situacional). Mesmo considerando que a própria constituição do ser humano enquanto tal, inclusive biologicamente, possua uma condicionalidade histórica.
Desse modo, características tais como a constituição física, psicológica e intelectual (em termos de capacidade intelectual em função do desenvolvimento da inteligência, bem como o conhecimento que é derivado da experiência) podem ser consideradas como intrínsecas; por outro lado, a condição social, pobreza, desemprego, falta de moradia, distúrbios familiares, etc., podem ser consideradas vulnerabilidades extrínsecas. Estas podem aumentar ou diminuir, fazendo com que alguém que possua alguma vulnerabilidade intrínseca (a criança, o idoso, a mulher, entre outros) se encontre numa situação ainda mais vulnerável do que se encontra, mas não constituí-lo enquanto tal.
Nesse sentido, deve-se considerar que uma coisa é estar incluído no mundo do trabalho, sob o ponto de vista estritamente econômico, e, ao mesmo tempo, ser afro-descendente, outra é ser afro-descendente, particularmente num país de tradição colonial e que tenha se utilizado do trabalho escravo de africanos e seus descendentes, bem como que, quando do fim deste último, não tenha realizado uma integração dos ex-escravos ao mundo do trabalho. E, ainda, independente disso, em função da própria permanência do racismo que se associava à idéia da exploração do trabalho escravo 9.
Considerando a existência de uma vulnerabilidade intrínseca e de uma vulnerabilidade situacional, muitas podem ser as combinações de modo a se estabelecer maior ou menor vulnerabilidade dos diferentes grupos sociais (e até mesmo das pessoas, consideradas individualmente), segundo a classe, o gênero, a faixa etária, entre outros aspectos. Devido a isso, consideramos que é importante a análise de diferentes formas e graus de vulnerabilidade.

1.2. Graus de vulnerabilidade
Para a realização de uma análise mais acurada do conceito de vulnerabilidade, bem como dos objetos que possam vir a serem investigados com este respectivo conceito, consideramos que é relevante o estabelecimento de graus de vulnerabilidade.  Além disso, devido a essa própria variação no grau de vulnerabilidade no âmbito das diferentes esferas da sociabilidade em geral (trabalho, social em geral, familiar, político, simbólico), que, pode-se dizer, é dada por maior ou menor (e, ainda melhor ou pior) vinculação/desvinculação do indivíduo no âmbito de cada uma dessas esferas, é possível a identificação de diferentes situações em que grupos e pessoas podem se encontrar.
Com efeito, pode-se ser intrinsecamente vulnerável (por exemplo, quando se é a criança, idoso, mulher, em diferentes casos e por diferentes motivos) e, de outro lado, encontrar-se incluído no âmbito das relações sociais de produção (por exemplo, pertencendo a uma família de classe média ou alta e dominante, com renda, patrimônio, etc.).
Por outro lado, um trabalhador que se encontra desempregado e, por isso, vivendo de expedientes “informais” para sobreviver, mas que, ao mesmo tempo, dada a sua qualificação profissional e as condições específicas do mercado de trabalho, faz parte do grupo dos desempregados, pode ser considerado como vulnerável, na medida em que se encontra excluído. Mais precisamente, este mesmo trabalhador pode ser considerado como vinculado (ou incluído de forma excludente), em relação à esfera das relações sociais de produção, particularmente na medida em que este: 1) estiver desempregado, mas, ao mesmo tempo permanecer “empregável” ou “não-empregável”; 2) exercer uma atividade “informal”, para sobrevier, que é mais ou menos necessária para a sociedade em geral; ou 3) possuir algum patrimônio ou renda (poupança, FGTS, etc.) que o permita (sobretudo se ele ainda for “empregável”) passar pelo período em que está desempregado sem uma queda significativa em seu “padrão de vida” e, de algum modo, poder se vincular a alguma forma de sociabilidade geral ou familiar.
Um “morador de rua” encontra-se numa situação de exclusão (extrema), desvinculado 10 e, desse modo, bastante vulnerável.  No entanto, ele será mais vulnerável se, ao invés de um adulto, ele for uma mulher, criança ou um idoso, dado o maior grau de vulnerabilidade intrínseca ou constitutiva destes últimos. Isso reforça a necessidade da consideração do conceito de vulnerabilidade intrínseca.

2. Criança – o mais vulnerável dos seres
A criança é portadora de uma vulnerabilidade intrínseca, particularmente em função de uma fragilidade física e psicológica. Mas, também de uma fragilidade cognitiva e política. Tais fragilidades apresentam-se de tal ordem e em tal grau que é possível dizer que a criança é, intrinsecamente, o mais vulnerável dos seres.
Pode-se argumentar que, numa idade muito avançada e, sobretudo, quando doente, o ser humano é tanto quanto ou mais vulnerável que uma criança. No entanto, sobre isso, há que se observar que, em termos de vulnerabilidade, só se pode comparar um idoso doente com uma criança doente e não com uma criança sadia. Por outro lado, comparando-se um idoso são com uma criança sã, esta parece ser bem mais vulnerável. Sobre este aspecto, há que se observar que, nesse caso, o grau de vulnerabilidade aumenta na medida em que a criança é mais nova e o idoso mais velho, sendo que haveria uma mesma vulnerabilidade, de mais alto grau, tanto no nascimento quanto no momento da morte.
Com efeito, antes mesmo de nascer, a criança já está sujeita a uma exclusão absoluta, que é aquela que se dá quando da ocorrência de um aborto. Particularmente, o aborto não-natural, provocado por uma mãe que, por motivos de desejo (não-desejo) ou de necessidade, interrompe sua gestação. Para não falar da criança que, seja por um estado de necessidade ou desejo (não-desejo), é abandonada em algum lugar desprotegido, de modo a deixá-la vulnerável de tal forma que possa acarretar sua morte ou algum dano físico e/ou psicológico, em alguns casos, estrutural ou permanente 11.
Após seu nascimento, e até uma idade bastante avançada, o ser humano, e particularmente a criança, se encontrará numa situação de dependência absoluta (de vida e de morte) ao adulto que a acolhe e cuida dela, tomando-a sob sua responsabilidade (mãe, pai ou algum outro responsável).
Uma primeira vulnerabilidade característica da criança é derivada da fragilidade física em relação ao mundo externo em geral e às pessoas que a cercam, sobretudo os adultos que cuidam diretamente dela. Em função disso, a criança estará potencialmente exposta a toda forma de violência. No entanto, sobre isso, há que se observar tanto a violência extrema relativa a maus-tratos, agressão física, espancamento, quanto uma “violência de baixo teor”, tão comum à forma como os adultos têm tratado a criança na história, mas, também à forma como têm tratado até hoje 12.
Consideramos “violência de baixo teor” as mais diferentes modalidades de agressões, muitas vezes não tidas como tal, caracterizadas pela “palmada”, o “beliscão”, a fala agressiva e raivosa e não apenas firme e assertiva, entre outras práticas. Mas, ainda, o próprio uso do castigo, também em diversas modalidades, cuja aplicação implica o uso força física superior do adulto sobre a criança que, mais frágil e mais fraca, não pode deixar de se sujeitar.
Sobre este aspecto, é importante considerar que, para a criança, e particularmente para a criança pequena, os pais constituem-se numa das principais fontes do que é considerado como verdade. Logo tudo o que eles disserem ou fizerem, mesmo quando contrário ou maléfico à criança, parecerá a esta como algo correto, verdadeiro e necessário. Segue que quando os pais utilizam-se da violência para com a criança, esta tenderá a considerá-la como uma forma razoável, correta e necessária de resolver suas divergências para com os outros, passando a utilizá-la sempre que achar necessário, desde que o outro em questão não corresponda ao seu desejo e que seja alguém mais fraco fisicamente.
Em nosso modo de ver, esta se constitui numa conseqüência lógica e natural do cuidado e da educação da criança que se realiza por meio do castigo e/ou da agressão.  Entendimento esse que é corroborado por Bruno Bettelheim, para quem “o que as crianças aprendem com o castigo é que o poder faz a justiça. Quando forem grandes e fortes o suficiente, tentarão se compensar; assim, muitas crianças punem os pais, agindo de maneira a desgostá-los” 13.
Por outro lado, conforme o desenvolvimento psíquico dessa criança vai se realizando, bem como a criança vai tomando conhecimento do mundo à sua volta, construindo algumas de suas concepções acerca do mesmo, quando os pais se utilizam da violência, sem uma consideração de seu desejo e de sua razão, não podendo se contrapor à força maior do adulto, a criança tenderá a se render. No entanto, tal rendição não significará uma concordância da criança em relação à razão dos pais. Ao contrário, pois enquanto estes podem conseguir fazer com que a criança os obedeça, no momento em que se utilizam da violência, no longo prazo, a tendência é que se desenvolva um afastamento íntimo da criança em relação aos pais.
Nesse caso, a criança tenderá a se ressentir em função de seu desejo e sua razão não serem considerados, mesmo quando negados. Nesse caso, outro aprendizado que a criança obtém dessa circunstância é que nem sempre a razão do outro precisará ser considerada. Principalmente pelo lado que possui a força.

“(…) a maioria das pessoas precisa sentir que suas opiniões receberam total atenção antes de se mostrarem dispostas a querer ou ser capazes de considerar quaisquer opiniões fervorosamente opostas que lhes são apresentadas. É necessário ter uma segurança interior considerável para ser capaz de levar em conta opiniões contrárias às nossas, uma segurança que falta às crianças de todas as idades. Mas torna-se muito mais fácil, se sentirmos que a outra pessoa está disposta a esforçar-se para entender nossas razões e levá-las (e, com elas, a nós) em conta seriamente – ai estaremos abertos a outros argumentos e talvez até mesmo dispostos a aceitá-los ” 14.


Essa desconsideração da razão da criança se torna ainda mais problemática quando são os pais que, muitas vezes, primeiro desconsideram as próprias regras que eles mesmos estabelecem. Seja porque discordam entre si acerca da forma correta de proceder para com a criança e para com a vida, seja por não serem coerentes para consigo mesmos, procedendo ora de uma forma, ora de outra, emitindo sinais contrários para a criança.
No que diz respeito ao castigo, consideramos que este se constitui num ato de violência, de todo semelhante à agressão física, uma vez que, por meio daquele, está se obrigando a criança a fazer ou não fazer algo, mediante o uso da força física. E, se a criança se recusar a obedecer, conforme o caso, esta poderá apanhar ou ser obrigada a obedecer, mediante a força. Devido a isso, o que se disse acerca da violência em geral pode ser estendido ao castigo.
Para os que consideram razoável, não o uso de uma violência indiscriminada, mas o uso de uma “violência de baixo teor” (isto é, a palmada, o beliscão, ou algo semelhante), deve-se considerar, em primeiro lugar, o quanto é difícil se graduar esta violência. Particularmente, em função da marca de violência histórica que permeia as relações sócio-familiares, não apenas no Brasil, mas também em grande parte do mundo, em função do poder quase absoluto dos pais para com os filhos, bem como de uma “dominação masculina” 15 que a caracteriza. Além disso, deve-se considerar, também, que quando se utiliza de uma violência, mesmo que “de baixo teor”, o recado é o mesmo: a legitimação do uso da violência nas relações interpessoais.
Ademais, quando se utiliza da violência como uma forma de educar, além da legitimação dessa violência, pode ocorrer de a criança tanto não gostar que esta violência seja dirigida a ela, porque ninguém gosta de ser objeto da agressão alheia 16, quanto, justamente por acreditar que os pais ou aqueles que tratam dela se constituem numa das principais fontes do que seja considerado como verdade, a acreditar que essa violência é correta e necessária, desenvolver uma baixa auto-estima, além de uma divisão em relação a seus sentimentos para com seus pais. E, por extensão, para as demais relações, na medida em que os pais se constituem no primeiro objeto e modelo de amor de toda criança 17.
Sobre este aspecto, há que se observar que a criança só pode acabar por amar e/ou odiar seus pais, pois, ao contrário de outras relações que estabelecemos durante a vida, dada a condição de vulnerabilidade da criança, esta não possui escolha. Mas, mais do que isso, a idéia de que o amor dos pais a ela (a criança) não é incondicional, mas condicionado a um suposto bom comportamento, decorre também, na imaginação infantil, a crença numa possibilidade de perda, ou abandono, dos próprios pais. Situação esta que, de resto, já fora vivenciada quando da primeira vez em que a mãe que primeiro a abrigou, a abandonou por um instante, sem que a criança, na sua ignorância soubesse que iria voltar.
A possibilidade da perda de seus pais, por sua vez, representa para a criança uma possibilidade de perda de sua própria vida. A repetição recorrente dessa experiência terá repercussões para todo e qualquer relacionamento que a criança estabelecerá no futuro, sobretudo no que diz respeito à relação amorosa propriamente dita. É por isso que, muitas vezes, continuamos a ter essa mesma sensação quando do término de algum relacionamento amoroso 18.
É na infância que aprendemos a amar. Com efeito, em relação ao amor, parece-nos que, de Platão a Heidegger, passando por uma série de outros autores, foi Freud e, um pouco depois, e de outra forma, Heidegger quem mais chegou perto de uma possível definição 19. É isso o que observamos a partir de uma leitura da obra destes autores como um todo que, apesar de não terem oferecido uma definição explícita, indicam que o amor constitui-se num “cuidado” [Heidegger] para com o “outro” a quem desejamos o “bem”. “Bem” este que se constitui num desejo de que os desejos e as necessidades deste sejam satisfeitos. Este desejo se torna tanto maior quanto mais próximo estamos deste outro. Por outro lado, é tanto maior quanto mais essa aproximação nos faz lembrar nosso primeiro objeto de amor que são nossos pais, ou um dentre estes (ou os pais que nós idealizamos) que, por sua vez, dedicaram esse cuidado para conosco.
O amor, portanto, pode ser considerado como tendo sua origem, justamente, no reconhecimento da criança do cuidado que os pais (ou os que cuidaram dela na mais tenra infância) tiveram para com ela, desde o seu nascimento. Por isso, a violência (sob todas as formas), o descuido e o abuso 20 em relação ao cuidado que se tem na relação com a criança em seus primeiros anos de vida (sobretudo de 0 a 6 ou 8 anos), é imprescindível para o desenvolvimento em geral, bem como para o desenvolvimento de sua capacidade de amar.
A tudo o que já foi observado deve-se acrescentar mais uma das vulnerabilidades intrínsecas que caracterizam o ser da criança. Este é o desconhecimento acerca de praticamente todas as coisas. Sobre este aspecto, há que se observar a necessidade da criança, assim como o ser humano em geral, possuir um mínimo de determinadas certezas, mesmo que incorretas ou não verdadeiras, de modo a poder guiar a sua ação prática na vida em geral e, particularmente, no que diz respeito a determinadas interrogações acerca da realidade.
O problema é que, se de início, a criança tudo ignora, de outro lado, conforme vai crescendo e se desenvolvendo, não pode permanecer na ignorância. Desse modo, pode-se dizer, em analogia com o conceito de “conhecimento possível” de Jürgen Habermas 21, mas num sentido inverso deste, que existiria uma espécie de “ignorância possível” como um limite da ignorância e do desconhecimento com que o ser humano, e a criança em particular, pode conviver de modo a saber como agir em sua vida prática, bem como a aliviar suas ansiedades e angústias em relação à mesma.
Portanto, devido a uma necessidade da criança de formar um juízo acerca das coisas do mundo, de como agir, necessitando, para isso, de saber o que é certo e o que é errado, paralelo a uma incapacidade de realizar um raciocínio lógico desenvolvido, bem como de utilizar-se deste para a compreensão de noções que não podem ser totalmente formalizadas, e de outro lado, tendo os pais como principal fonte de saber e de referência quanto ao que é considerado como verdade, a criança acabará por acreditar em tudo o que estes dizem.
Além disso, tanto porque seus pais muitas vezes se contradizem, em seus atos e em palavras, bem como porque estes não podem fornecer todos os elementos para que a criança possa tomar conhecimento de uma realidade que, de resto deve e só pode ser construída por ela mesma, esta acabará por preencher as lacunas existentes por meio do desenvolvimento de um pensamento mágico 22.
Considerando essa forma “mágica” de pensar, típica da criança, decorre que, inicialmente esta possui uma grande dificuldade, senão uma total impossibilidade de argumentar e, reciprocamente, de ouvir e entender qualquer argumentação, nos termos de uma argumentação lógica ou quase-lógica 23. Por isso, também, pelo menos antes da criança completar seis anos de idade, a argumentação para com a criança não pode se realizar sob os mesmos princípios lógicos ou quase-lógicos da argumentação entre adultos. Ao contrário, deve-se realizar tendo em vista um convencimento e uma persuasão eficaz para a criança e não para o adulto. Desse modo, pouco importa que o adulto, ao invés de uma lógica, se utilize, algumas vezes, de um pensamento mágico. É por isso que os contos de fadas parecem-se realistas e verdadeiros para as crianças 24.
Além da fragilidade física e de uma ignorância acerca da maior parte das coisas relativas ao mundo que a cerca, outro fator que contribui para a condição intrinsecamente vulnerável da criança no âmbito da família é a sua fragilidade psicológica.  Nesse sentido, deve-se considerar que um fato que para um adulto pode parecer normal e sem conseqüências, passando até despercebido, para uma criança pode parecer traumático. E, desse modo, até porque “todo ser vivo é eterno infante” 25, tal trauma pode se tornar motivo do desenvolvimento de uma neurose, com implicações para o futuro da criança, podendo transformá-la num adulto com uma vulnerabilidade intrínseca (psicológica) dificultando sobremaneira sua vinculação ao ambiente sócio-familiar, bem como em outras esferas do relacionamento social 26.
Outro aspecto a se observar é que, ao contrário do adulto, a criança não pode, por ela mesma, ou por um representante legítimo de sua causa e de suas razões, agir politicamente em prol de seus interesses, com vistas à criação de leis e práticas públicas que as favoreçam. Desse modo, pode-se dizer, de certa maneira, que a criança se encontra completamente desvinculada no que diz respeito ao âmbito da política, onde, justamente, em última instância, é onde e como são encaminhadas todas as questões que dizem respeito às relações entre os homens, inclusive destes com as crianças e particularmente com os seus filhos. No entanto, isso se torna mais importante quando se verifica o nível de poder que os pais possuem em relação ao cuidado e à educação dos filhos, questão esta considerada geralmente como de foro privado e não público.
Mas os problemas decorrentes de uma desvinculação da criança no âmbito da política não se esgotam na relação pais-filhos. Afinal, tal como os adultos, até mesmo num maior grau, dada a vulnerabilidade intrínseca da criança, esta também sofre as mesmas conseqüências quando da aplicação de uma política econômica e de desenvolvimento social excludente, concentrada e desigual, particularmente se esta criança pertence a uma família da classe média ou, sobretudo da classe trabalhadora. Ou, nem isso, excluída até mesmo do mercado de trabalho, como lúmpen-proletariado permanente.
Tais circunstâncias acarretam problemas diretos para as suas condições materiais, mas, também, para as suas condições espirituais e psicológicas, na medida em que afeta também seus pais (ou os que cuidam dela), dificultando que estes possam lhe dar um melhor acolhimento, dedicar mais tempo para a ela, para não dizer de estar em condições espirituais e psicológicas condizentes para a prática de um cuidado e um acolhimento qualitativo.
Sobre este aspecto, é importante observar a luta que foi a aprovação de leis como a que dá direito a uma licença-maternidade (e também à licença-paternidade), bem como a da redução da jornada de trabalho 27 (ora em curso) que, em tese, consiste numa forma de diminuir a exploração da força de trabalho de uma maneira geral, mas, também, em aumentar o número de horas que o trabalhador pode se dedicar a si mesmo e não ao lucro do capitalista. Portanto, ao lazer e à dedicação de sua prole.
O mesmo pode ser dito em relação a uma política de desenvolvimento que não seja sustentável. Com efeito, a prática de uma economia insustentável do ponto de vista ecológico, que compromete o meio ambiente e as gerações futuras prejudica, sobretudo, as crianças e os mais jovens. Afinal, como observou Keynes, tempos atrás, em relação ao caráter depredador bem como insustentável do ponto de vista econômico, “no longo prazo, todos nós [os adultos] estaremos mortos”.
É claro que se é verdade que, em função de todos os fatores supramencionados, a criança é um dos mais vulneráveis dos seres, é verdade também que sua vulnerabilidade tenderá a variar em função da forma como especificamente ela será tratada, em primeiro lugar, pelos seus pais, mas, também, pela própria sociedade como um todo. Nesse sentido, o grau de vulnerabilidade estrutural da criança, decorrente de uma fragilidade físico-psíquico-social intrínseca, tenderá a variar em função de determinadas condições históricas.
Se a criança pode ser considerada como um ser vulnerável em si mesmo (o mais vulnerável dos seres), é verdade que esta vulnerabilidade é bem menor hoje em dia do que nos tempos da sociedade pré-industrial, quando as crianças eram muito menos acolhidas, sendo, em muitos casos, entregue a “amas-de-leite”, quando, particularmente, não se tinha a mesma idéia que se tem hoje tanto da infância quanto da maternidade 28.
Ademais, deve-se observar, também, a recente evolução, nos últimos vinte ou trinta anos no que diz respeito ao cuidado e à educação dos filhos, no entanto, para um segmento ainda diminuto da sociedade (geralmente os que possuem uma melhor formação, informação, renda, etc.), particularmente no que tange à amamentação, alimentação, entre outros aspectos 29.
No entanto, sobre isso, deve-se observar que embora, em tese, para os pais e/ou aqueles que cuidam e educam as crianças, particularmente no âmbito do ambiente familiar, tenha a intenção de que todas as suas ações visem ao bem da criança, não raro essas ações produzem muitos malefícios à própria criança. Isso se deve, de um lado, a uma ignorância em relação à forma como se constitui a psicologia da criança, e, de outro, a existência de uma neurose dos adultos que teve como causa a forma como estes foram tratados por seus pais. A isso se deve acrescentar a existência histórica de um poder quase absoluto dos pais em relação aos filhos.

3. Relação pais/filhos // adulto/criança: um teste ético

Devido à situação de fragilidade e de vulnerabilidade da criança frente a tudo e a todos, os pais ou o adulto que se relaciona diretamente com aquela, devem impor a si o exercício de uma verdadeira responsabilidade ética. Nesse sentido, se considerarmos que “o exercício do poder revela o homem” 30 e que “o melhor dos homens não é o que exerce sua virtude em relação a si mesmo, mas em relação a um outro, pois esta é a tarefa difícil” 31, pode-se dizer que é na relação com a criança – o mais vulnerável dos seres – que o ser humano passa por um dos seus maiores, senão o maior, dos testes éticos. Pois, quando não se possui o poder, isto é, o poder de dominar, agredir (exercendo um verdadeiro monopólio da violência), comandar, influenciar, etc., bem como o poder de “fazer e desfazer leis”, como possui o adulto, e, sobretudo, os pais, em relação à criança, mas, ao contrário, quando se está sujeito a tudo isso, como muitas vezes parece se encontrar o ser humano face ao poder do Estado, do patrão, de um outro mais poderoso e mais forte, etc, como uma criança frente a um adulto, é fácil ser-se ético. Difícil é quando se tem o poder 32.
Sobre este aspecto, já se observou que educador deve ser educado 33. Com efeito, os pais são os primeiros educadores que temos. Mas quem educa os pais? Não se trata de querer impor a estes que recebam por parte de quem quer que seja uma educação formal acerca de como cuidar de seus filhos. Ao contrário, talvez fosse o caso de sequer impor-se aos filhos a necessidade de uma educação formal 34. Trata-se de propor uma abertura de um debate público acerca do cuidado e da educação para com as crianças. Cuidado esse que, acreditamos, não deve ser de responsabilidade exclusiva dos pais da criança, mas também de toda sociedade. Por isso, o poder dos pais em relação às crianças também deve ser regulado e, em alguns casos, diminuído.
Particularmente no que diz respeito a essa árdua e importante tarefa de cuidar e educar os filhos em seus primeiros e mais importantes anos de vida, regra geral, os pais se preocupam em educar demais e cuidar de menos. Ademais, uma das maiores indagações acerca da possibilidade de ter ou não ter filhos, quase sempre, se refere às possibilidades materiais e raramente às possibilidades psíquicas para tal. Particularmente, a possibilidade de amar saudavelmente a seus filhos, tendo a capacidade de desenvolver toda uma empatia para com a criança, imprescindível para quem cuida da mesma 35.
Sobre esta empatia, considerada por Bruno Betthelheim como “tão importante para a compreensão de um adulto tem de uma criança”, é considerada como “uma tentativa de nos colocarmos no lugar do outro, de maneira que nossos sentimentos nos sugerirão não só suas emoções, mas também seus motivos” 36. Devido a isso,

“quando estamos tentando criar uma resposta empática, devemos entender o outro de dentro, não de fora, como provavelmente faria um observador interessado e até preocupado, na tentativa de compreender os motivos do outro através do seu intelecto” 37.


A criança deve ser acolhida pela família na qual ela se insere e, portanto, é claro, por seus pais. Entendemos tal acolhimento sob a mesma perspectiva que os profissionais da saúde têm definido, e que foi incluída nos princípios do SUS (Sistema Unificado de Saúde), como uma acolhida, sendo esta considerada como uma “aceitação, um dar ouvidos, dar crédito, agasalhar, atender”. Ainda, uma “ação de aproximação, um ‘estar com’ e um ‘estar perto de’, ou seja, uma atitude de inclusão”. Analisando mais pormenorizadamente esse acolhimento, segue que este deve ser considerado como uma “ética no que se refere a um reconhecimento do outro, na atitude de acolhê-lo em suas diferenças, suas dores, suas alegrias, seus modos de viver, sentir e estar na vida” 38.
No entanto, nem sempre, ou poucas vezes, a criança é acolhida integralmente de forma plena. Bruno Bettelheim, em seu trabalho como psicanalista especializado em criança, tratando de crianças de diversas partes do mundo, observou como uma grande quantidade de pais confessou, intimamente, não desejar ter filhos, não estar preparado para tal, ou, ainda, não ter se dado conta do trabalho e da responsabilidade que a condição de paternidade implica 39.
Por isso, dizemos que existe, em graus variados, uma espécie de abandono da criança não-abandonada. Tanto em relação a crianças pertencentes a famílias da classe trabalhadora pobre, cujas condições materiais de existência dificultam sobremaneira a possibilidade de cuidar de seus filhos, quanto, também, em relação a crianças que pertencem às classes médias e altas (dominantes).
Dada esta vulnerabilidade intrínseca relativa à condição existencial da criança, aqueles que cuidam desta última devem se impor uma ética que considere a razão e o desejo da criança, mesmo no caso de ter de negá-la. Tal negação por sua vez, deve-se realizar, ou com uma explicação nos termos da criança (portanto, em alguns casos, uma mistura de pensamento mágico e lógica e, conforme o caso, apenas por meio de um pensamento mágico), ou sem nenhuma explicação, tendo como base a autoridade que os pais (ou aquele que trata da criança) tem sobre os filho, na medida em que este os estime e lhes tenha amor. Não em função de um medo de qualquer ato de violência física ou psíquica.
Há que se observar que, como contra fatos não existem argumentos, a educação se realiza muito mais pelo exemplo do que pelas palavras. Devido a isso, os pais devem procurar agir de acordo com suas palavras. Ou, conforme o caso, exprimir de uma forma coerente para a criança regras que estejam de acordo com sua prática.  É baseado nessa coerência entre “teoria” e prática, palavra e ação, e no fato de serem estimados e amados (isto é, serem reconhecidos pela criança como aqueles que dedicaram e dedicam um cuidado para com a criança), ouvindo ou sendo atenciosos para com a criança em relação a sua razão e ao seu desejo, que os pais devem esperar serem ouvidos e atendidos. Porque “é o desejo de ser amado e considerado pelos outros próximos ou não tão próximos que nos faz agir correto para com estes e não as proibições ” 40.

Notas


* Mestre em História pelo “História Comparada”, com a tese “Marx Poético: linguagem figurada na argumentação marxiana no capital” (2005), professor de História e de Música (violão) escritor. autor da peça teatral “Mãe ou o antiédipo” (2001).
1  Período considerado por Sigmund Freud como sendo de formação psíquica básica do ser humano. Sobre isso, ver FREUD, Sigmund. “Três ensaios sobre a sexualidade infantil”. _________________. (1905) In. Obras Completas de Sigmund Freud. (com comentários e notas de James Strachey, em colaboração com Ana Freud). Volume XII Tradução: Jayme Salomão. Rio de Janeiro, Imago, 1974, pp. 122-252.
2 CASTEL, Robert, op cit. Castel, inclusive, não se utiliza do conceito de exclusão, por considerá-lo estático, substituindo-o por “vulnerabilidade”, que segundo este autor, pretende ser dinâmico. Além do fato de que, segundo Castel, não se pode considerar ninguém numa dada formação social como totalmente excluído. Optamos por utilizar o conceito de vulnerabilidade, mantendo, no entanto, à menção ao conceito de exclusão, dada a grande visibilidade deste último, bem como pelo fato de acreditarmos que se possa trabalhar com este de forma dinâmica, bem como pelo fato de que, ainda que ninguém ou quase ninguém possa ser considerado como totalmente excluído, acreditamos que a exclusão se constitui num fato. CASTEL, op cit, p 569.
3  Apud ESCOREL, Sarah. Vivendo de teimosos: moradores de rua da cidade do Rio de Janeiro. In: BURSZTYN, Marcel (org.) No meio da rua: nômades, excluídos e viradores. Rio de Janeiro: Garamond, 2000. p. 139-171. p. 142.
4  ESCOREL, ibid.
5  ESCOREL, ibid.
6  ESCOREL, op cit, p. 144.
7  Ibid.
8  Ibid.
9  Sobre a dificuldade de integração do negro no mercado de trabalho quando da abolição do trabalho escravo no Brasil ver FERNANDES, Florestan. “A integração do negro na sociedade de classes”. São Paulo, Edusp. 1964.
10  Sobre isso, deve-se observar como o recente desenvolvimento da “indústria da reciclagem” tem incluído (ou vinculado sem incluir) de forma excludente diversos “sobreviventes de rua” que realizam o trabalho catar latinhas, papel, enfim, toda uma série de materiais reciclados. Isso se constitui numa exploração de alto grau que a indústria da ecologia como um todo (isto é, os capitalistas deste setor) agradece.
11  Considerando a necessidade de se defender um ser indefeso como o feto, depois a criança, que, tanto quanto outro, ou mais, possui o direito à vida, direito este que, de resto, constitui-se num direito fundamental do ser humano, pode-se dizer aborto deveria ser proibido em todo o mundo, como, aliás, é estabelecido pela legislação brasileira. Sobre isso, consideramos que até mesmo em caso de estupro, particularmente quando não há risco para a vida da mãe, aborto não apenas deve ser evitado como proibido. Salvo no caso em que a lei prescreve, qual seja: no caso de o feto ou criança ser anencéfala. No entanto, consideramos também que, a sociedade deveria não deixar apenas para os pais, e muito menos apenas para a mãe, a tarefa de cuidar da criança que está por nascer, aparando de toda e qualquer forma todas as crianças da sociedade. No entanto, também sobre este aspecto, creio que a sociedade deveria abrir um debate em torno destas questões. Do aborto, mas combinado com o problema do amparo à criança, não de uma forma apenas assistencialista, bem como da criança em geral.
12  Sobre uma história da violência contra a criança, sobretudo no Brasil, ver GONÇALVES, Hebe Signorini. “Infância e violência no Brasil”. Rio de Janeiro, Nau, 2003.  PRIORI, Mary Del. (org) “História da criança no Brasil”. São Paulo, Contexto, 1992; (org) “História das crianças no Brasil”. São Paulo, Contexto, 1999. (org) “História das mulheres no Brasil”. São Paulo, Contexto, 1997. São diversos os relatos de violências físicas contra as crianças na atualidade que o “jornalismo policial” explora quase todos os dias. Quanto a essa “violência de baixo teor”, deve-se observar a existência de leis proibindo o emprego da punição corporal, em todas as suas modalidades, na Suécia (1979), Finlândia (1983), Noruega (1987) e Áustria (1989). Isso pode ser considerado tanto um sintoma de um avanço em direção a uma redução da violência a que a criança está sujeita nestes países quanto um sintoma de sua existência (sobretudo antes da aplicação de tais leis) de modo a necessitar das mesmas. Há poucos dias, na Nova Zelândia, uma lei que proibia a prática de violência contra a criança foi revogada, por plebiscito. Atualmente, o governo da Inglaterra está pretendendo introduzir na educação infantil “aulas contra a violência doméstica”, em função de um grande número de casos de violência doméstica contra crianças e mulheres nos lares ingleses. Cerca de um milhão de britânicos enfrentam pelo menos um episódio de violência doméstica por ano. 750 mil crianças sofrem violência doméstica na Inglaterra. Sobre isso, ver jornal “O Globo”, 26/11/2009. 1º. Caderno, p.37. No Brasil, o Projeto de Lei 2654/2003, de autoria da deputada federal Maria do Rosário (PT-RS) que proíbe o uso da palmada na educação de crianças não apenas não foi aprovado pelo Congresso Nacional como sofreu uma crítica virulenta por parte de programas de rádios populares, bem como de seus ouvintes. Há poucos dias, quando a Lei contra a violência contra a criança foi revogada na Nova Zelândia, uma “pesquisa popular” em uma destas rádios, indagou aos seus ouvintes: “para você, uma palmada educa ou traumatiza?”. O resultado foi: por telefone 41% achando que a palmada traumatiza e 59% achando que educa; e, por Internet, 100% achando que a palmada educa. Rádio Tupi, 1280 KHz, AM, em 24 de agosto de 2009, no programa de  “Francisco Barbosa”, de 10 às 12hs. http://www.tupi.com.br.
13 BETTELHEIM, Bruno. “Uma vida para o seu filho: pais bons o bastante”. Rio de Janeiro, Campus, 1988, p.95.
14  BETTELHEIM, Bruno. “Uma vida para seu filho”, op cit, p. 43.
15  Sobre a dominação de uma “visão masculina dominante” no âmbito das relações interpessoais e, particularmente, no que diz respeito às relações de gênero, com reflexos na educação da criança, em função dos aspectos relativos ao gênero que permeia essa educação, isto é, no estabelecimento da diferenciação menino/menina, ver BOURDIEU, Pierre. “A dominação masculina”. Rio de Janeiro, Bertand do Brasil, 1999.
16  Salvo no caso do desenvolvimento de uma personalidade sado-masoquista que, de resto, constitui-se como uma reação a uma violência sofrida na infância. Sobre isso ver FREUD, Sigmund. “Cinco lições de psicanálise”. In “Os Pensadores”. São Paulo, Abril Cultural, 1978, pp. 1-31.
17  “A primeira escolha de objeto feita pela criança e dependente de sua necessidade de amparo exige-nos ainda toda a atenção. Essa escolha dirige-se primeiro a todas as pessoas que lidam com a criança e logo depois especialmente aos genitores. (…) A criança toma ambos os genitores, e particularmente um deles, como objeto de seus desejos eróticos”. FREUD, Sigmund. “Cinco lições”, op cit, p. 30.
18  FREUD, Sigmund. “Cinco Lições”, op cit, pp. 29-30; e BETTELHEIM, op cit, p. 101.
19  PLATÃO, “O banquete”. In “Diálogos”. Tradução: Jorgh Palhikat. Rio de Janeiro, Ediouro, s.d. DESCARTES, René. “As paixões da alma”. São Paulo, DPL, 2004. ver também. MILLAN, Betty. “O que é amor”. São Paulo, Brasiliense, 1981; KONDER, Leandro. “Sobre o amor”. Rio de Janeiro, Boitempo, s.d; QUEIROZ, Álvaro. “O desejo na filosofia: pesquisa psicológica” (on line) Maceió, ano 2, n 1, julho de 2008, disponível em http://www.pesquisapsicologia.pro.br.; FREUD, Sigmund. “Sobre o narcisismo: uma introdução”.Rio de Janeiro, Imago, 1989; “Três ensaios sobre sexualidade”. Edição Standard de edições brasileiras das obras psicológicas completas. Tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro, Imago, 1972, volume XVIII. HEIDEGGER, Martin. “Ser e tempo”. Petrópolis, Vozes, 2006.
20  Em relação ao cuidado com a criança, chama-se “abuso” uma forma de descuido ou cuidado demasiado que se apresenta sob os mais diferentes procedimentos para com a criança, entre os quais, os mais comuns são: 1) proteção demasiada, impedindo que a criança frequente a escola (frequencia esta que é recomendável que seja o mais cedo possível, até com alguns meses); 2) a sedução sexual implícita (muito comum) ou explícita, em função de um narcisismo dos pais; 3) a falta de uma educação alimentar, com a oferta de guloseimas ou de alimentos não recomendáveis; entre outras. Sobre isso, ver FREUD, Sigmund. “Sobre o narcisismo”, op cit; FREUD, Ana. “Infância normal e patológica: determinantes do desenvolvimento”. Tradução: Álvaro Cabral. Rio de Janeiro, Zahar, 1971.
21  Considero conhecimento possível como o conhecimento passível de ser adquirido pelo ser humano num dado estágio do pensamento humano em geral e das possibilidades psicológicas de conhecimento HABERMAS, Jurgen. “Conhecimento e interesse”. Tradução: José N. Heck. Rio de Janeiro, Zahar, 1982.
22  Como se sabe, embora as fronteiras entre os ciclos de desenvolvimento da criança não sejam totalmente fixas e nem arbitrárias, havendo uma possibilidade de variação em função de cada uma em particular, considera-se que é a partir do chamado “terceiro ciclo do desenvolvimento da inteligência”, depois dos seis ou sete anos, que a criança torna-se capaz de realizar operações lógico-matemáticas. Paralelamente, ela começa a se utilizar de uma lógica ou uma quase-lógica para argumentar. Sobre isso, ver FERREIRO, Emília. “Atualidades de Jean Piaget”. Tradução: Ernani Rosa. Porto Alegre, Armed, 2001. Quanto ao pensamento mágico, este pode ser considerado como a forma de raciocínio que estabelece conexões necessárias, justamente, entre premissas que não são necessariamente lógicas, mas que são necessariamente ilógicas, embora adequadas para aquele que raciocina desse modo, em função de, por meio de tais premissas, haver uma adequação do seu psiquismo com o que e como se conhece a realidade.
23  Nesse caso, estamos denominando quase-lógica a semi-formalização dos enunciados e premissas que estabelecemos para argumentar, de todo semelhantes às premissas da lógica, mas nunca iguais as desta última. Pois, raciocínio rigoroso e totalmente lógico constitui-se mais numa demonstração do que numa argumentação. Como disse, Aristóteles, “ninguém delibera sobre coisas invariáveis”. “Ética a Nicômaco”. Tradução Pietro Nassetti. São Paulo, Martin-Claret, 2004, p. 129. Sobre uma definição de argumento quase lógico e a diferença entre demonstração e argumentação ver PERELMAN, Chaim e OLBRECHTS-TYTECA. “Tratado da argumentação: a nova retórica”. São Paulo, Martins Fontes, passim.
24  BETTELHEIM, Bruno. “Psicanálise do conto de fadas”. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 2007.
25  PESSOA, Fernando. “Quarto/D. Tareja”. In “Mensagem”. Obra Poética, op cit, p. 73.
26  FREUD, Sigmund, “Esboços de psicanálise”, “Os pensadores”. São Paulo, Abril Cultural, 1978, p. 112.
27  No que diz respeito ao tempo que o trabalhador dedica ao trabalho, deve-se acrescentar à jornada de trabalho o tempo de locomoção casa-trabalho, o principal deslocamento realizado pela classe trabalhadora. Por isso, a prática de uma política de transporte coletivo de massa (de preferência público e não-privado) constitui-se numa necessidade imprescindível para a classe trabalhadora e, desse modo, para a maior parte da população. Esse é um dos motivos pelos quais a locomoção por meio do automóvel deveria ser desestimulada. Tanto para melhor o trânsito, dando-se privilégio a um transporte público coletivo, quanto por motivos ecológicos.
28  Sobre a construção social da noção de maternidade, ver BADINTER, Elisabeth.  “O mito do amor materno: um amor conquistado”. Sobre a noção de infância ver “ARIÈS, Philippe. “História social da família e da criança”. Para o caso particular da criança no Brasil, ver PRIORI, Mary Del. (org). “História da criança no Brasil”. São Paulo, Contexto, 1992.
29  Sobre isso ver o blog da jornalista Telma Torrecilha http://www.educarecuidar.com.
30  BIAS, um dos chamados sábios da Grécia antiga, citado por ARISTÓTELES em “Ética a Nicômaco”. Tradução: Pietro Nassetti. São Paulo, Martin Claret, 2004, p. 105.
31  ARISTÓTELES, op cit, pp. 105-106.
32  Com o que dissemos, não estamos querendo compartilhar da idéia de uma suposta bondade original do ser humano que, por isso mesmo, estaria presente na criança, particularmente quando aquele ainda não fora corrompido pela sociedade, pela maldade, etc. Ao contrário, dentro da tradição freudiana, consideramos a existência tanto de uma maldade quanto de uma bondade (ou de uma capacidade para tal; Eros e Tânatos) que, conforme o meio tenderá a se desenvolver, bem como a se temperar, em parte com o uso da razão, em parte com a própria realidade que se apresentará como um obstáculo à realização do desejo. O que ocorre é que um descuido e um abuso no cuidado para com a criança podem dar uma resolução boa ou má para estas pulsões. Sobre isso, ver ROZA, Luiz Alfredo Garcia. “O mal radical em Freud”. Rio de Janeiro, Zahar, 1979; e MANCEBO, Denise. “Ética em Psicanálise: Freud e Lacan”. Rio de Janeiro Zahar, 1982.
33  MARX, Karl, “Teses sobre Feuerbach”. In “Os pensadores”. São Paulo, Abril Cultural, 1978, p. 51.
34  Sempre que se pensa na hipótese de não se impor à criança uma educação formal, pensa-se que tal iniciativa, fatalmente, fará com que futuramente, quando adulto, a criança não encontrará emprego no mercado de trabalho. Pensa-se, como sempre, sobretudo, na adequação que se considera necessária da educação ao capital que, no fundo, é fonte de inúmeros equívocos a esse respeito. Esquece-se, nesse caso, que o acesso ao mercado de trabalho, para não dizer ao capital mesmo, como proprietário de meios de produção, depende muito mais de um capital cultural e simbólico não apenas escolar, mas, também (e, em alguns casos, mais importante, como é o caso das classes médias altas e dominante) social. Com isso, não queremos defender a necessidade de uma “sociedade sem escolas”, mas sim de uma “sociedade com esta escola que aí está”. Sobre isso ver BOURDIEU, Pierre. “A reprodução: elementos para teoria do sistema de ensino”. Lisboa, Editoral Veja, 1978. ILHICH, Ivan. “Uma sociedade sem escola”. Rio de Janeiro, Zahar, 1978. Ver também a interessante biografia do crítico de cinema canadense que retirou seu filho da escola aos 15 anos, com a contrapartida de que ele assistisse a três filmes por semana, escolhido pelo pai, debatendo com este após assistir o filme. Hoje, o filho desse crítico de cinema tem 24 anos e é ator e escritor. GILMOUR. David. “O clube do filme”. Tradução: Luciano Trigo. Rio de Janeiro, Editora Intrínseca. 2009.
35  BETTELHEIM, Bruno. “Uma vida para o seu filho”, op cit, p. 35. Nossa idéia de educação e, sobretudo, de cuidado com a criança é baseada numa reflexão a partir das obras de Freud aqui mencionadas, na razão argumentativa de Habermas e Perelman, também mencionados e na obra de Bruno Bettelhem. Para uma visão diferente da nossa e que acreditamos ser equivocada, ver. ZAGURY, Tânia. “O direito dos pais: construindo cidadãos em tempos de crise”. 11ª. Edição. Record, Rio de Janeiro, 2004.  Baseada numa idéia (equivocada) de que a psicologia moderna teria retirado dos pais a capacidade de dizer “não” aos filhos, ZAGURY chega a se referir aos pais como “uma classe dominada”, o que além de inverter a relação, como se pais (adultos) é que fossem vulneráveis (ZAGURY não usa esse termo), utiliza-se, também, de modo equivocado do conceito de classe. Pois, definitivamente, ser pai não indica nenhuma condição de classe, nem em termos metafóricos.
36  BETTELHEIM, Bruno, “Uma vida para o seu filho”, op cit, p. 75.
37  BETTELHEIM, Bruno, ibid.
38  “Acolhimento nas práticas de produção de saúde”. 2ª. Edição, Série B. Textos básicos de saúde, Brasília, Distrito Federal, 2006. In http://www.saude.rr.gov.br/humanizasus/acolhimento_nas_praticas.pdf
39  “Uma vida para o seu filho”, op cit, p. 5.
40  BETTELHEIM, Bruno. “Uma vida para o seu filho”, op cit, p. 99.

LOPES, Ricardo. O abandono da criança não abandonada: uma análise da vulnerabilidade da criança no âmbito familiar. Revista Eletrônica Boletim do TEMPO, Ano 5, Nº20, Rio, 2010 [ISSN 1981-3384]


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Se acaso

by Lou Mello on 18 de September de 2014 · Comments

in PsicoLougia de Botequim

091814 1317 Seacaso1 Se acaso Lupicínio Rodrigues

 

“Eu não sei se o que trago no peito/ É ciúme, despeito, amizade ou horror;/ Eu só sei é que quando eu a vejo,/ Me dá um desejo de morte ou de dor”:

Lupicínio Rodriques

 

Certamente não publicarei esse texto no blog. O pior de todos os erros seria admitir minha falência. Melhor morrer mentindo e salvar alguma dignidade.

Acho que isso se chama desamparo e ninguém menos que Jesus Cristo o sentiu quando se viu pregado naquela cruz ridícula com a qual ceifaram sua a vida. Sem esquecer que foram os sacerdotes da época seus carrascos, embora não tenham sujado as mãos com carne e sangue tão medíocre, entregando essa parte aos romanos, mais acostumados a eliminar a ralé. Depois vocês não sabem porque os considero baitas sacanas.

Os sacerdotes de hoje devem ser a reencarnação daqueles algozes do Filho do Homem, certamente mais aprimorados em maldade e safadeza. O apóstolo Paulo foi outro a sentir o desamparo quando se viu atrelado a uma corrente presa em uma bola de ferro impossível de ser movida. Também teve morte horrorosa, segundo dizem, teria sido decapitado. Pelo jeito, não há salvação para quem foi premiado com esses destinos cruéis.

Dia 16 próximo passado, Lupicínio Rodrigues completaria um século de vida se vivo estivesse. Bem longe disso, faleceu pouco antes de completar sessenta anos, segundo dizem, devido a problemas no coração. Acredito nisso, mas não tanto nas questões físicas e clínicas, mas seu coração deve ter parado cansado de viver sendo constantemente abandonado, enjeitado, traído e mal amado. É paradoxal demais, um cara escrever mais de uma centena de músicas, falando só das conhecidas (dizem que há mais outra centena, ainda a serem reveladas, ao menos), e viver e morrer desamparado de amor, amizade e companhia.

Se acaso você chegasse
No meu chateau e encontrasse
Aquela mulher que você gostou
Será que tinha coragem
De trocar nossa amizade
Por ela que já lhe abandonou?

Não acredito que o problema dele tenha sido só desilusões de amor relacionadas às mulheres de sua vida. Esse cara conheceu o limbo, olhar, mesmo em meio a multidões, e sentir só desprezo. Conviver com seus familiares como se fosse um zumbi, sem atenção, carinho ou mesmo respeito. Lá pelas tantas, a pior das conclusões: sou responsável por tudo que me sobrevém: o tal atestado de incompetência.

Aí não há coração que resista, se não for pior, pois muitos acabam sem a memória, a dignidade e a vida, igualmente. As pessoas não perdem a memória, apagam-na, por vários motivos, culpa, negação e falta de amor, também. Quem quer admitir ser um mal amado?

Pronto, acho que já posso voltar para cama e dormir um pouco. Isso estava dentro de mim, fazendo o maior barulho para eu abrir-lhe a porta para que pudesse sair. Quem consegue dormir com um barulho desses?

morcego 12 150x150 Se acaso

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091214 0104 SteveJobsno1 Steve Jobs não deixava os filhos mexerem em iPads e iPhonesNick Bilton

  • 091214 0104 SteveJobsno2 Steve Jobs não deixava os filhos mexerem em iPads e iPhones

    Assim como outros executivos do ramo da tecnologia, Steve Jobs limitava ao máximo o tempo que seus filhos podiam mexer em iPads e iPhones

Quando Steve Jobs dirigia a Apple ele era conhecido por ligar para jornalistas para lhes dar um tapinha nas costas por um artigo recente ou, com maior frequência, para explicar como entenderam errado. Eu estive do outro lado da linha em uma dessas ligações. Mas nada me chocou mais do que algo que Jobs me disse no final de 2010, após acabar comigo por algo que escrevi sobre uma falha do iPad.

“Então, seus filhos devem adorar o iPad?” eu perguntei a Jobs, tentando mudar de assunto. O primeiro tablet da empresa tinha acabado de chegar às lojas. “Eles não o usaram”, ele me disse. “Nós limitamos quanta tecnologia nossos filhos usam em casa.”

Eu estou certo que respondi com um silêncio estupefato. Eu imaginava o lar de Jobs como sendo um paraíso dos nerds: que as paredes eram telas de toque gigantes, a mesa de jantar era feita de iPads e que iPods eram dados aos convidados como chocolates em um travesseiro.

Não, disse-me Jobs, longe disso.

Desde então eu conheci vários executivos-chefes e capitalistas de risco que dizem coisas semelhantes: eles limitam rigidamente o tempo de seus filhos diante de telas, frequentemente proibindo todo tipo de aparelhos em noites de dias de aula e alocando limites de tempo rígidos nos fins de semana.

Eu fiquei perplexo por esse estilo de criação. Afinal, a maioria dos pais parece adotar a abordagem oposta, permitindo que seus filhos se banhem no brilho de tablets, smartphones e computadores, dia e noite.

Mas esses executivos-chefe de tecnologia parecem saber algo que o restante de nós não sabe.

Chris Anderson, o ex-editor da revista “Wired” e agora executivo-chefe da 3D Robotics, uma fabricante de drones, institui limites de tempo e controle dos pais em todos os aparelhos em seu lar.

“Meus filhos acusam minha esposa e eu de sermos fascistas e exageradamente preocupados com tecnologia, e dizem que nenhum de seus amigos enfrentam as mesmas regras”, ele disse sobre seus cinco filhos, com idades entre 6 e 17. “Isso se deve por termos vistos os riscos da tecnologia pessoalmente. Eu já vi, e não quero que isso aconteça com meus filhos.”

Os riscos a que ele se refere incluem exposição a conteúdo prejudicial, como pornografia, bullying de outras crianças, e talvez o pior de tudo, se tornar viciado em seus aparelhos, como seus pais.

Alex Constantinople, o executivo-chefe da OutCast Agency, uma empresa de comunicações e marketing focada em tecnologia, disse que seu filho mais novo, que tem 5 anos, não é autorizado a usar aparelhos no fim de semana, e seus filhos mais velhos, de 10 a 13 anos, só podem usar 30 minutos por dia nas noites de dias de aula.

Evan Williams, um fundador do Blooger, Twitter e Medium, e sua esposa, Sara Williams, disseram que em vez de iPads seus dois filhos pequenos têm centenas de livros (sim, físicos) que podem pegar e ler a qualquer hora.

E como as mães e pais tecnológicos determinam os limites apropriados para seus filhos? Em geral, de acordo com a idade.

As crianças com menos de 10 anos parecem mais suscetíveis a ficarem viciadas, de modo que esses pais decidem não permitir acesso a quaisquer aparelhos durante a semana. Nos fins de semana, há limites de 30 minutos a duas horas de uso do iPad e smartphone. E entre os 10 e 14 anos é permitido o uso do computador nas noites de dias de aula, mas apenas para lição de casa.

“Nós temos uma limitação rígida de acesso às telinhas para nossos filhos”, disse Lesley Gold, fundador e presidente-executivo do SutherlandGold Group, uma empresa de relações entre mídia e tecnologia e análise. “Mas é preciso relaxar à medida que ficam mais velhos e precisam do computador para a escola.”

Alguns pais também proíbem adolescentes de usarem as redes sociais, exceto para serviços como o Snapchat, que apaga as mensagens após serem enviadas. Assim, eles não precisam se preocupar com ter dito algo online que venha a assombrá-los no futuro, me disse um executivo.

Apesar de alguns pais não ligados em tecnologia que conheço darem smartphones para crianças de apenas 8 anos, muitos dos que trabalham em tecnologia esperam até seus filhos terem 14. Apesar desses adolescentes poderem fazer chamadas e enviar mensagens de texto, eles não recebem um plano de dados até os 16 anos. Mas há uma regra que é universal entre os pais tecnológicos que entrevistei.

“Essa é a regra número 1: nada de telas no quarto. Ponto. Nunca”, disse Anderson.

Apesar de alguns pais tecnológicos estabeleceram limites baseados em tempo, outros são mais rígidos sobre o que seus filhos podem fazer com seus aparelhos.

Ali Partovi, um fundador do iLike e consultor do Facebook, Dropbox e Zappos, disse que é preciso haver uma distinção forte entre o tempo gasto “consumindo”, como assistir YouTube ou jogando games, e tempo gasto “criando” nas telas.

“Assim como eu não sonharia em limitar quanto tempo uma criança pode passar com seus pincéis, ou tocando piano ou escrevendo, eu acho absurdo limitar o tempo gasto criando arte no computador, editando vídeo ou fazendo programação”, ele disse.

Outros disseram que proibições totais podem sair pela culatra e criar um monstro digital.

Dick Costolo, presidente-executivo do Twitter, me disse que ele e sua esposa aprovam uso ilimitado de aparelhos desde que seus dois filhos adolescentes estejam na sala de estar. Eles acreditam que limitações demais de tempo poderiam ter efeitos adversos sobre seus filhos.

“Quando eu estava na Universidade de Michigan, tinha um sujeito que vivia no dormitório vizinho ao meu, e ele tinha engradados e engradados de Coca-Cola e outros refrigerantes em seu quarto”, disse Costolo. “Eu descobri posteriormente que era porque os pais dele nunca permitiram que ele tomasse refrigerante quando era garoto. Se você não deixar seus filhos terem alguma exposição a essas coisas, que problemas isso causará depois?”

Eu nunca perguntei a Jobs o que seus filhos faziam em vez de usarem os aparelhos que ele produzia, de modo que perguntei a Walter Isaacson, o autor de “Steve Jobs”, que passou muito tempo na casa dele.

“Toda noite, Steve fazia questão de jantar na grande mesa longa na cozinha deles, discutindo livros e história e uma variedade de coisas”, ele disse. “Ninguém nunca pegava um iPad ou computador. As crianças não pareciam nem um pouco viciadas nesses aparelhos.”

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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Ele voltará

by Lou Mello 27 July 2014 apocalípticas

  Nós só veremos os pobres, os doentes, os sofredores nesta vida. Até Jesus Cristo sofreu quando esteve por aqui. Imagine nós, que não temos as costas largas que ele tinha. Alguém disse, certa vez, algo mais ou menos assim: “Deus não enxerga pobreza, doença ou qualquer outra das misérias comumente vistas nessa vida, pois […]

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